Funerão 16.05.10
No domingo dia 15/05/2010 os Trilheiros do Sul fizeram a trilha do Funerão.
Saindo de Porto Alegre as 6:30 da manhã em direção a Rota do Sol, cruzando São Francisco de Paula e indo em direção ao litoral no entroncamento para Cambará do Sul, o grupo encontrou com o Sr Pedro no posto Charrua, que fica no inicio da RS-486. O Sr. Pedro seria o anfitrião e guia do grupo na trilha do Funerão.
No caminho para a fazenda do Sr. Pedro, lugar de onde o grupo sairia para a trilha, um lamaçal no meio da estrada impedia a passagem da van. Como havia o risco de atolamento o grupo preferiu caminhar os, aproximadamente, cinco kilometros que faltavam daquele ponto até a fazenda.

Combinaram com o Osmar, proprietário da transportes Nogara, e que era o motorista da Van, qual seria o lugar da chegada onde ele se encontraria com o grupo. Tudo acertado equiparam-se e iniciaram uma bela caminhada por campos bonitos que os levariam até a fazenda.
Depois de uma hora de caminhada o grupo chegava à propriedade do Sr. Pedro. Um lugar lindo onde o carinho e o capricho eram notáveis em todos os detalhes. Lá os Trilheiros foram recebidos com uma surpresa:
Um belo café os esperava, com queijos, pães, biscoitos, pinhão e uma série de coisas gostosas que apenas a hospitalidade do interior sabe oferecer. Após comerem e visitarem algumas partes da fazenda o grupo se reuniu novamente para receber as ultimas instruções antes da trilha e começar a sua caminhada.

Saindo da fazenda do Sr Pedro o grupo entrou na trilha e começou o ataque ao cânion do Funerão. A trilha estava incrivelmente embarrada, forçando os aventureiros a pisarem em pequenos tufos de vegetação na tentativa de evitar que os pés afundassem até acima dos tornozelos. Alguns, claro, não conseguiram salvar a dignidade das botas e mergulharam os pés na lama, para a diversão dos demais. Algumas partes do caminho possuíam sub trilhas, por dentro do mato, que estavam mais secas, não tendo aquele lodo atolador. RedBull sempre as preferia fazendo os que estivessem atrás dele o seguissem e os que estavam na frente, com pés enlameados, o amaldiçoassem. Em uma dessas sub trilhas o X resolveu explorar e após algum tempo sem contato visual, apenas auditivo, se perdeu do grupo, e foi trazido de volta através de coordenadas via rádio, o que só reforçou a necessidade de jamais se perder o contato visual com os demais.

Mais adiante era hora da parada para o almoço, o grupo sentou em um lugar aprazível indicado pelo Sr Pedro e lanchou. O Sr Pedro como havia prometido, juntou um grande monte de grilha (folhas secas de pinheiros), colocou diversos pinhões sob esse monte e ateou fogo. Após alguns minutos as grilhas foram consumidas restando apenas os pinhões assados no chão, junto com as cinzas. Um saboroso quitute rústico que agradou muito quem experimentou.
Após o almoço reiniciaram a caminhada e logo na primeira saída da mata puderam vislumbrar todo cânion e ainda ver o ponto de destino: o viaduto do outro lado da Rota do Sol. Iniciaram a descida do cânion por uma trilha estreita, íngreme e sinuosa. A trilha serpenteava o morro de forma que alguns Trilheiros podiam visualizar os outros em patamares inferiores ou superiores como se fossem degraus de uma escada gigante.

Mas não bastava chegar até o fundo do cânion, o caminho até o viaduto exigia que outras elevações nas laterais do cânion fossem subidas e novamente descidas, não era possível apenas seguir o leito do rio. Esse sobre e desce somado ao longo tempo de caminhada estafou todos os aventureiros, mas sobre todos uma menina se exauriu completamente. Por mais de meia hora dois membros da Equipe de Apoio, GATTS (Grupo de Ação Tática dos Trilheiros do Sul), a acompanhou de perto, monitorando e auxiliando sempre que preciso. O numero de paradas aumentou na tentativa de manter o grupo unido dentro da mata e o ritmo da caminhada diminuiu bastante. Já eram mais de 16:30 quando ao o Sr Pedro respondeu a pergunta de alguém dizendo que ainda faltavam umas 3 horas para o final da trilha. O grupo estava longe demais da saída do cânion.

Essa notícia pegou todos de surpresa. O grupo esperava estar coma trilha terminada no máximo as 18:00hs. Mas isso não seria possível. Eles haviam se atrasado e agora pegar noite na trilha era iminente. Para agravar a situação uma das participantes não tinha condições de apertar o passo. Talvez nem mesmo de agüentar mais 3 horas de caminhada pesada. Ninguém disse nada, mas os rostos de cada um deixavam escapar a apreensão e o susto com as possibilidades que surgiam.

• “Pessoal, vamos dividir o grupo em dois. A maioria virá comigo e o Seu Pedro e a equipe de apoio ficará para trás com a menina. A partir de agora precisamos andar muito depressa. Pegaremos noite no caminho, mas sairemos daqui!”
Antes de eu reunir o grupo para dizer essas palavras, chamei o responsável pela logística e segurança em campo, Roberto Canti, o Sargento, e disse que pensava ser melhor tirarmos a maioria das pessoas do cânion e deixar apenas a moça que estava exausta junto com a equipe de apoio. Já pensava em ter que resgatá-la posteriormente, e nesse caso 5 pessoas para serem resgatadas era melhor do que 20. Minha idéia era que eu mesmo, RedBull, ficasse com ela e ele, o Sargento, saísse com a maior parte o grupo. Mas ele preferiu ficar. Junto com ele ficariam o X e a Lu assessorando a moça e o seu marido. Enquanto acertávamos a logística do deslocamento o Max pai, disse que também ficaria. Ele tem grande experiência em travessias de cânion e a vivência dele foi bem vinda. Inseparável, Max Filho também ficou junto ao pai. Um novato, o Miguel insistiu em ficar também. Como talvez fosse preciso carregar a moça, não houveram muitas objeções.

Agora o segundo grupo era composto por 8 pessoas. 2 mulheres e 6 homens. Comuniquei a Lu via rádio, pois ela estava muito distante de nós quando decidimos a separação. E me dirigi para fazer a comunicação do grupo que eu conduziria até a saída. Depois de comunicar a divisão do grupo e a iminência da queda da noite sobre nós, notei as caras assustadas e assegurei a todos que sairíamos dali. Estávamos com o guia. O grupo estava coeso, unido. Não tínhamos com o que nos preocupar. Sairíamos dali não importa o tempo que levasse. Era o que eu queria transmitir para eles naquele momento. Ao que parece, consegui. Mas eu não poderia conduzir o pessoal sozinho. Já vinha há algum tempo sentindo um dos meus joelhos, mas não podia deixar que ninguém notasse. Antes de voltar para se reunir com o pessoal que ficou para trás o Roberto Canti, sem saber da condição do meu joelho pediu que o Marcelo também ajudasse na condução do 1º grupo.
Marcelo Medaglia é um dos membros fundadores dos Trilheiros do Sul e possui uma paz de espírito invejável, eu não podia querer parceiro melhor.

Iniciamos a caminhada em silêncio. Pelo rádio eu ouvia a comunicação do 2º grupo que iria se reunir para também começarem a caminhar juntos. A cada passo meu joelho doía mais. A cada contato no rádio eu me sentia pior em deixar amigos para trás.
O Marcelo ia na frente do grupo junto com o Seu Pedro, e o nosso guia apertou mesmo o passo. Ninguém reclamou de acompanhá-lo. Subimos e descemos muitos morros e eu ia procurando pedras pelo chão para amontoar e deixar no meio do caminho, apontando para o segundo grupo o caminho certo e a certeza da nossa passada. Em bifurcações galhos eram colocados para bloquear a entrada a passagem dos caminhos indesejados, mas a cada parada o meu grupo de distanciava de mim e eu não podia pedir para que eles parassem. Me resignava com a dor no joelho e aumentava meu passo, me dando ao luxo de gemer de dor a cada passo mais forte, pois quando estivesse perto deles não poderia fazê-lo.
A noite já havia caído a essa altura e o nosso grupo tinha apenas 3 lanternas e um celular para iluminar o caminho. Pelo rádio eu tentava contato com os outros. Já não conseguíamos mais nos comunicar claramente. A estática ia tomando conta da nossa comunicação por causa dos acidentes do terreno e também pela distância que tínhamos sobre eles. Quando me perguntavam como eles estavam eu apenas respondia: “Eles estão bem. Estão vindo atrás de nós.”

•“O Sargento vai dar um jeito.”
Alguém disse isso baixinho e no escuro. O Sargento não conseguiu identificar quem foi, mas essa pequena frase deu uma força muito grande. Como ele disse depois:
“Cara, sabe o que me manteve tranqüilo o tempo todo? Não foram os cursos, e experiência do quartel. Nada disso. Foi a confiança que ouvi do grupo que ficou comigo. Ouvi da moça que do jeito que eu estava fazendo ela ia conseguir. Isso me deu toda a força que eu precisava. Eu já sabia que teríamos dificuldades pelo horário, pelo terreno difícil, mas sempre soube que um dia íamos passar por isso.”

Quando o 2º grupo se reuniu já era noite e com poucas lanternas disponíveis era preciso se manter juntos. O Sargento foi na frente para rastrear o 1º grupo que a esta altura já estava muito distante, sendo difícil até a comunicação via rádio. Estava tudo muito escuro e era difícil visualizar alguma coisa. A moça caminhava com grande dificuldade e o X e a Lu precisavam descansar. Amarraram fita tubular nela para servir de alça e em um deles para ela poder se apoiar. Ela caiu vaias vezes. Não se machucou nenhuma pois eles estavam sempre amparando ela. Era como conduzir um cego. Ela estava muito cansada, mas grande parte do problema também era psicológico. O Sargento chegou a pensar em uma maca. Ele e o X tinham material e treinamento para confeccionar uma. Mas carregar uma maca naquele terreno seria muito dificil e causaria um impacto psicológico maior em todos. Por isso eles preferiram trabalhar o psicológico da moça ao invés de sacrificar todo o grupo.
•"Alto e claro, Red!!"
Foi com entusiasmo que a Lu falou isso no rádio quando ouviu nitidamente a minha voz. Da minha parte também foi tranquilizador ouvi-la tão bem. Era sinal de que eles talvez estivessem nos alcançando. Quem sabe chegassem junto com a gente no viaduto, que era nosso ponto de fuga da trilha.
Nós do primeiro grupo havia reduzido a marcha por causa da escuridão e das poucas lanternas. Silenciosamente eu agradeci por isso, pois não conseguia mais sequer dobrar o joelho e cada descida era um sacrifício homérico. E com essa redução de ritmo era possível que o 2º grupo houvesse se adiantado.

Pelo rádio a Lu pediu que eu marcasse a trilha com papel higiênico. Foi um idéia excelente, pois não haviam mais pedras ou galhos pelo caminho e o papel higiênico seria bastante visível na escuridão. Comecei a pedir indicações de eles estavam e elas começaram a bater com os lugares que havíamos passado, mas nossa alegria durou pouco. Em pouco tempo o sinal se perdeu novamente. Dessa vez, totalmente. Era impossível não pensar que eles haviam tomado algum caminho errado. Apenas o distanciamento explicava a falta de comunicação dos rádios. Fiquei aflito. Tinha vontade gritar para que voltassem ao lugar onde tínhamos sinal. Pedi para o grupo parar. Tentei diversas vezes o contato. Mas não obtive respostas. Disse para o grupo prosseguir. Olhei para trás e torci para que eu estivesse errado.
Ainda caminhamos muito depois disso. Entre subidas e dolorosas descidas. Por fim chegamos no lugar onde o Sr Pedro disse ser a ultima travessia de rio. De mãos dadas todos atravessamos juntos o rio que tinha uma profundidade que fazia a água bater um pouco abaixo das nossas cinturas.
Após atravessar o rio ainda caminhamos meia hora até a subida final, onde a van estava nos esperando. Tentei ainda chamar pelo rádio mas sem nenhuma resposta. Subi na van e retirei minhas botas para tentar aliviar a dor. Estava procurando o tênis na mochila quando o rádio deu sinal. Eram eles!

Calcei rápido o tênis e caminhei o mais rápido que pude até o cento do viaduto. Então pude ouvir o Sargento com clareza. Eles estavam vindo. Estavam bem. Um dos “aspiras” veio me fazer companhia e pedi me ajudasse a subir na mureta de proteção para aumenta o sinal. Tentamos descobrir onde eles podiam estar trocando informações sobre pontos de referências que o 1º grupo havia passado, mas isso não deu certo. Tentamos estabelecer um contato visual com sinais de lanterna não obtivemos sucesso. Mas eles viam a estrada de dentro da mata. Isso era um alento. Então tentamos identificar se eles viam o mesmo ponto onde eu estava. Assim eles diziam se viam algum carro passando e eu deveria confirmar, mas o que eles viam não condizia com que EU via. Após muitas tentativas frustradas eu perguntei se eles haviam visto algum papel higiênico.
Quando o Sargento me deu uma resposta negativa, minhas esperanças todas esvaneceram. Um nó se criou na minha garganta antes que eu pudesse dizer:
“Sargento, vocês estão perdidos.”
•“Cara... Eu confio em ti. Vamos seguir.”
Quando o RedBull disse para o Sargento, no rádio, que estávamos perdidos o clima ficou tenso na mata. Foi um momento de dúvida se a direção que seguíamos era a certa.
Mas o Sargento GARANTIU que estávamos na direção correta, numa hora em que eu já pensava em como passaríamos a noite por ali. Nossa amiga estava realmente exausta e chegou até a manifestar pânico quando achou que estávamos perdidos. Na verdade, até este momento não sabíamos se estávamos no caminho que levaria até a van. Então, o tipo de segurança no tom de voz transmitidas pelo Sargento, via rádio, e que todos ouviram, serviu de combustível a mais, elevando o moral.
A gente acha que conhece as pessoas, até que acontece um lance destes e a gente percebe que elas são muito mais.
Ele tinha certeza que estávamos no caminho certo. Nós podíamos ver uma estrada ao longe, pra mim foi suficiente para dar seqüência. Era só seguir até a estrada, problema resolvido. Agora, era só continuar. Coloquei a mão no ombro do Sargento e depositei toda minha confiança nele.

Mas eu estava cansado e os MAXES apareceram na hora certa.
Já havia anoitecido faz tempo, e eu (X) e a LU, mais o Miguel, estávamos bem para trás apoiando o casal, desde as 15:00h mais ou menos. Pra terem uma idéia, na grande descida em zig-zag do canion, a amiga desceu de mão comigo. Ou com a Lu puxando-a pela mochila. Quando ela caiu pela 3a vez, resolvemos "grudar" nela. E assim foi até as 18:30h (mais ou menos) quando os Maxes surgiram.
Apoiaram na travessia dos arroios assim que nos encontramos, demonstrando estarem prontos para ajudar.
Neste momento eu estava super cansado. Havia batido o joelho numa pedra quando escorreguei, e doía muito. Já vinha a horas assim. A Lu reclamava do joelho também, pelo esforço da descida - das várias descidas, e estava no limite.

Segui a frente com o Sargento, para ajudá-lo na função de batedor.
Bem... o que aconteceu dali para frente foi uma coisa no mínimo bonita, para não dizer heróica. O Max pai, seguiu até o rio, conduzindo a amiga como se fosse uma filha. Sinalizando cada passo, e literalmente puxando-a, e incentivando com uma paciência e equilíbrio mágicos para aquela situação. E isso por várias horas. O Max filho auxiliava, sempre junto ao pai. Calmo e sereno. Com uma austeridade que é dificil de ser ver nos guris da idade dele hoje em dia. Depois soubemos que quem teve a idéia de levar as lanternas, que foram indispensáveis, foi dele. Do Max filho.
Os Max, pai e filho foram o elo pra chegarmos até o fim.
•“Eêêêê!! Estamos vendo vocês!!”
Felizmente a comunicação via rádio havia se estabelecido, era fato que o 2º grupo já via a estrada então independente da posição que estivessem se eles pudessem chegar até a estrada estariam salvos. Mas um detalhe ainda preocupava. O 2º grupo não havia visto nenhum papel higiênico no caminho. E já fazia mais de uma hora que o 1º havia chegado. Usar os carros que trafegavam na estrada se mostrou frustrante. Nada do que o grupo que estava na mata dizia ver, condizia com o que se passava na estrada de fato. Foi então que a Lu teve uma idéia. Ligar o pisca alerta da van. Assim se eles pudessem ver estaria identificada nossa posição. Foi uma festa a comprovação de que eles podiam enxergar o paradeiro da van.

Pouco tempo depois outra notícia boa.
“Red, encontrei os papeis higiênicos.”
Era o Sargento dando, via rádio, a confirmação derradeira de que eles estavam no caminho certo. Mas ainda havia o ultimo desafio que era a travessia do rio. Assim o RedBull e o Vinicius fizeram o caminho de volta até o rio onde pacientemente esperaram o 2º chegar. A certa distância puderam ver as lanternas no meio da mata. Providencialmente a bateria do radio só acabou naquela hora. E a comunicação via rádio cessou. Mas não era mais preciso. Eles já tinham contato visual.
SUPERAÇÃO
O 2º grupo atravessou o rio no local indicado, todos se cumprimentaram como se há muito tempo não se vissem. A Lu e o RedBull se abraçaram, como irmãos. Choraram junto dizendo como estavam felizes em estarem se vendo. Todos estavam bem. A moça estava exausta, mas com um semblante feliz, ela acima de todos superou todos os seus limites. O seu esposo estava ao seu lado, fiel companheiro. Os Maxes, pai e filho, dupla inseparável. Exemplo de relacionamento pai e filho. Companheiros, cúmplices, amigos. Todos salvos. Todos bem.
Na chegada na van a festa do reencontro, do alívio e da missão cumprida. E todo o agradecimento para o Osmar, que esteve junto conosco aguardado ansioso pelo desfecho dessa aventura. E ao Sr Pedro, que sacrificou todo seu domingo para nos acompanhar. Eram 22:00 quando o 2º grupo chegou. E só então ele foi para casa. Já o Osmar, ainda teve que dirigir até Porto Alegre sob forte neblina e chuva.
Foi um passeio diferente.
Uma grande aventura.
Onde todos foram importantes, onde as amizades se estreitaram e onde muitos foram heróis.
Veja todas as fotos desse passeio
Outras fotos e comentários sobre o passeio no Fórum:
http://www.trilheirosdosultrk.com.br/forum/viewtopic.php?f=19&t=149&p=818#p818
Escrito por Fabiano Riffatti (RedBull)


























